1800 DC - Século XIX - A Consolidação
Como resultado do apoio entusiástico da Câmara de Cabo Frio à Independência
do Brasil, em 1822, o governo imperial enviou à região o major-engenheiro
Bellegard, com a missão de construir um farol na ilha de Cabo Frio,
para evitar naufrágios como o da fragata 'Thetis".
O major levantou
também os pegões da futura ponte sobre o Canal de Itajurú, instalou
um telégrafo, desobstruiu a barra nova e fechou a velha, preservando
o antigo porto da barra.
Por conta própria, Bellegard e outros cidadãos
levantaram o prédio da Charitas, destinado a abrigar e educar recém-nascidos
de mães solteiras pobres, que eram deixados anonimamente numa roda
na porta à noite e eram então recolhidos.
Em 1847, D. Pedro II
fez uma visita à cidade, estreitando as relações especiais que Cabo Frio
mantinha com o governo imperial. Nesta ocasião foi doada uma quantia para
a construção da cobertura da Fonte do Itajurú e outra para a Charitas,
a fim de facilitar sua manutenção e instalar uma enfermaria, que mostrou
ser de grande utilidade por ocasião das devastadoras epidemias de febre
amarela e varíola que assolaram a região neste século.
O Imperador visitou
ainda as Salinas Perynas, estabelecimento-modelo incentivado por ele próprio.
A salina era de propriedade do alemão Lindemberg, que colocou em prática
novos métodos para produtos minerais, dando início ao moderno parque salineiro
de Araruama.
Duas questões relativas ao comércio de escravos africanos
estremeceram a região ao longo do século XIX.
A primeira refere-se ao crescimento das fugas, assassinatos de feitores
e rebeliões de negros, resultando na formação de quilombos que sobressaltavam
os senhores brancos, apesar da ação dos capitães-do-mato.
A segunda diz respeito à proibição do tráfico transatlântico de escravos
e o contrabando que dele derivou.
As praias do Peró, em Cabo Frio, de José Gonçalves e da Rasa, em Búzios,
tornaram-se pontos de desembarques clandestinos deste comércio humano.
A marinha inglesa, em desrespeito às leis brasileiras, promoveu repressão
ao tráfico, chegando a apreender navios negreiros na costa brasileira
e desembarcar fuzileiros em Cabo Frio e Búzios.
No final do século XIX, a barra e antigo porto de Araruama recebeu novos
melhoramentos por iniciativa do governo imperial, dando passagem a navios
maiores e tendo ancoradouro ampliado. Alguns assoreamentos do Canal do
Itajurú foram dragados e canalizados, por iniciativa particular do engenheiro
francês Léger Palmer, permitindo a ampliação da carga e a navegação mais
eficiente dos vapores e veleiros que transportavam a grande produção de
sal para os armazéns da cidade.
A captura e a salga do pescado e do camarão mantiveram-se estáveis, da
mesma forma que a manufatura de telhas, tijolos e taboados.
O surgimento da construção naval e da indústria da cal - feita com conchas
da lagoa - abriram novas perspectivas econômicas para a região.
A abolição da escravatura em 1888 (e a conseqüente proclamação da República
no ano seguinte), desorganizou algumas atividades produtivas da região.
A agricultura do café viu-se substituída pela pecuária em pequena escala.
Os ex-escravos da zona rural reagruparam-se e fundaram uma povoação na
Praia da Rasa, em Búzios, passando a trabalhar na pesca e na horticultura,
enquanto os escravos da Cidade de Cabo Frio tomaram posse e fundaram a
povoação da Abissínia, futuro bairro da Vila Nova, trabalhando no fornecimento
de carvão vegetal aos antigos senhores.
Entretanto, a produção do sal
- o mais notável recurso natural da região - não foi afetada. A substituição
nas salinas do trabalho escravo pelo de imigrantes portugueses do Aveiro
trouxe técnicas artesanais consagradas, resultando no aumento da quantidade
e da qualidade da cristalização marinha artificial em Araruama.
Antes do final do século XIX, Cabo Frio ganhou a obra sempre sonhada por
seus cidadãos: uma ponte de ferro cruzando o Canal do Itajurú entre
os morros da Guia e do Telégrafo, mais tarde substituída pela ponte
Feliciano Sodré (1926). Assim, foi rompido o isolamento dos moradores
da restinga, responsável pela fraqueza do poder político e pela
emancipação de parte considerável do território original da antiga
Capitania: Macaé, Casimiro de Abreu, Saquarema, Araruama, Rio Bonito,
São Pedro da Aldeia e, no século XX, Arraial do Cabo.
Em razão do
adensamento urbano e das epidemias que assolavam a região, a Câmara
Municipal canalizou a água potável da Fonte do Itajurú para cinco
bicas distribuídas entre o Largo da Matriz e a Passagem.
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